TRADUÇÃO, CONCEITOS-CHAVE E ATUALIZAÇÕES

Em 2025, o livro Animal Liberation (Libertação Animal), de Peter Singer, completa 50 anos de sua primeira edição, publicada em 1975. Ao longo dessas cinco décadas, a obra consolidou-se como referência fundamental da ética animal contemporânea, influenciando ativistas, pesquisadores, políticas públicas e o próprio vocabulário moral do debate ético internacional.
Neste artigo, relato brevemente o processo de tradução do livro para o português e apresento seus principais conceitos filosóficos, bem como alguns dos desdobramentos que Singer desenvolve na obra recente Animal Liberation Now.
Este artigo é baseado na apresentação que fiz para o VII CURSO DE VERÃO EM DIREITOS ANIMAIS do Grupo de Pesquisa Observatório de Justiça Ecológica – OJE, a convite das professoras Letícia Albuquerque e Paula Brügger, cujo tema central das reflexões são os 50 anos da publicação do livro Libertação Animal de Peter Singer.
Encontro com Peter Singer e o caminho até a tradução

Meu primeiro contato com Peter Singer ocorreu em 1994, durante o 31º Congresso Vegetariano Mundial da União Vegetariana Internacional (IVU), realizado em Haia, na Holanda. Esse foi também meu primeiro evento vegetariano internacional (e nacional, pois nunca havia participado de nenhum evento vegetariano, talvez porque não houvesse nenhum no Brasil).
Ali conheci figuras importantes como Alex Hershaft (FARM – Farm Animal Rights Movement), Howard Lyman (autor de Mad Cowboy) e Helen Nearing, ligada ao movimento de retorno à terra e um estilo de vida mais simples e autossustentável.

Naquela ocasião manifestei a Peter Singer meu interesse em traduzir Animal Liberation. Voltando ao Brasil, tentei viabilizar a publicação por uma editora do Rio de Janeiro com a qual eu trabalhava. A proposta foi recusada: o tema era considerado “pesado”, “indigesto” e sem potencial de mercado em meados da década de 1990.

Quase dez anos depois, a Editora Lugano me procurou com a intenção de publicar a obra em português. Finalmente, entre 2003 e 2004, realizei a tradução da edição então vigente de Animal Liberation, que se tornou a primeira edição brasileira de Libertação Animal.
A edição brasileira contribuiu para inserir de modo sistemático o debate sobre especismo e senciência na academia e no ativismo brasileiro, oferecendo base conceitual mais consistente para um movimento que até então se estruturava sobretudo em argumentos éticos intuitivos, de saúde ou religiosos.

Nesse período eu já atuava na IVU como Coordenadora para a América Latina e organizava o 36º Congresso Vegetariano Mundial, realizado em 2004 no Costão do Santinho, em Florianópolis. A criação formal da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), em 2003, ocorreu nesse mesmo contexto.
Curiosamente, alguns anos depois a Editora Campus – que inicialmente não havia se interessado pelo tema – convidou-me para escrever o prefácio de outro livro de Singer, A Ética da Alimentação. Dois editores com quem trabalhei nesse processo acabaram tornando-se vegetarianos, o que ilustra a força transformadora do contato mais profundo com esses argumentos.
Libertação Animal (1975): contexto e proposta

Libertação Animal foi publicado pela primeira vez em 1975 e é amplamente reconhecido como o texto inaugural da formulação filosófica sistemática da causa animal. A obra não propõe “direitos” no sentido jurídico estrito, mas elabora uma nova ética baseada em:
- senciência (capacidade de sofrer e sentir prazer);
- igual consideração de interesses entre humanos e animais;
- crítica ao especismo.
Além da argumentação filosófica, Singer descreve minuciosamente as práticas da pecuária industrial e dos experimentos em laboratório. Traduzir os capítulos em que ele detalha o confinamento, as mutilações e o sofrimento de animais em sistemas intensivos foi uma experiência particularmente dura; porém, é justamente essa combinação entre análise ética e descrição factual que deu ao livro seu impacto duradouro. Singer não “visitou fazendas” na pesquisa original: ele recorreu a relatórios, livros técnicos e publicações da própria indústria agropecuária e de pesquisa, consultando longamente bibliotecas. Ou seja, as fontes são, em grande medida, descrições feitas pelos próprios criadores, pesquisadores e técnicos, cujo objetivo era aumentar a produtividade, não denunciar crueldades. Singer reorganiza e interpreta esse material à luz de uma reflexão moral sistemática.
Conceitos-chave de Libertação Animal
1. Especismo
O conceito central do livro é o especismo, definido como discriminação moral baseada na espécie. Assim como racismo e sexismo, o especismo é visto como um preconceito injustificável: considerar os interesses humanos necessariamente mais importantes apenas porque pertencem à nossa espécie é, para Singer, arbitrário.
O termo “speciesism” foi cunhado em 1970 pelo psicólogo britânico Richard D. Ryder. Singer adota a expressão, dá-lhe fundamentação filosófica e a projeta internacionalmente, tornando o conceito uma peça central do debate ético contemporâneo.

2. Senciência e a pergunta de Bentham
O critério moral proposto por Singer é a senciência: a capacidade de sofrer e sentir prazer. Ele retoma a famosa formulação de Jeremy Bentham (1789): A questão não é “eles podem raciocinar?” ou “eles podem falar?”, mas “eles podem sofrer?”.
Bentham argumenta que é a capacidade de sofrer – e não inteligência ou linguagem – que fundamenta a consideração moral. Singer transforma essa intuição no eixo de sua filosofia prática: todo ser capaz de sofrer tem interesses moralmente relevantes.
3. Igual consideração de interesses
A partir daí, Singer formula o princípio da igual consideração de interesses. Não se trata de tratar todos os seres da mesma forma, mas de atribuir peso igual a interesses semelhantes. Se cães, porcos e seres humanos têm interesse em evitar dor, esse interesse deve contar do mesmo modo quando fazemos escolhas morais.
4. Pecuária industrial como maior fonte de sofrimento evitável
Um dos alvos centrais do livro é a pecuária industrial. Singer descreve:
- confinamento extremo;
- mutilações sem anestesia;
- privação de movimento;
- frangos e porcos incapazes de se virar ou andar;
- sofrimento psicológico intenso.
Seu argumento é que comer produtos de origem animal, nas condições atuais, causa sofrimento severo e desnecessário, já que há alternativas alimentares viáveis.
5. Experimentação animal
O autor critica a maior parte dos usos de animais em laboratório, sobretudo quando:
- implicam dor intensa e prolongada;
- não produzem benefícios reais;
- não seriam aceitáveis se aplicados a humanos com capacidades cognitivas semelhantes (como bebês ou pessoas com deficiências profundas).
Singer defende um critério de coerência moral: se um experimento não pode ser feito em humanos em determinada condição, não há justificativa ética suficiente para realizá-lo em animais com sensibilidade comparável.
6. Utilitarismo preferencial
Sua fundamentação filosófica é um utilitarismo preferencial: devemos agir de modo a minimizar o sofrimento e maximizar o bem-estar, levando em conta as preferências e interesses de todos os seres capazes de sofrer, humanos ou não. Diferentemente do utilitarismo hedonista clássico, centrado apenas na maximização do prazer e na minimização da dor, Singer enfatiza a satisfação de preferências e interesses, ampliando a análise moral para além da mera soma de sensações. Ele atualiza, assim, a tradição utilitarista clássica (Bentham, John Stuart Mill), estendendo explicitamente o círculo moral para além da espécie humana.
7. Veganismo como consequência ética
Se é possível evitar sofrimento grave e desnecessário, conclui Singer, temos um dever moral de fazê-lo.
O veganismo aparece, assim, não como identidade ou “estilo de vida”, mas como consequência prática coerente da rejeição ao especismo e da ética baseada na senciência.
8. Expansão do círculo moral
Inspirado em ideias de Darwin, Singer propõe a metáfora da expansão do círculo moral: historicamente, a ética humana teria passado da família à tribo, à nação e à humanidade como um todo. Libertação Animal é um chamado para que ampliemos esse círculo a todos os seres sencientes. Mais tarde, o autor desenvolve essa ideia em obras como The Expanding Circle.
Animal Liberation Now (2023): balanço de 50 anos
Na edição revista e ampliada Animal Liberation Now (2023), Singer reavalia o impacto do livro original e a evolução da causa animal. O prefácio apresenta um quadro ambivalente: progressos significativos, mas também retrocesso em escala global.
Avanços
Entre os avanços, Singer destaca:
- crescimento e profissionalização de organizações de proteção animal;
- aprovação de referendos e leis contra formas extremas de confinamento, sobretudo em alguns estados norte-americanos e países europeus;
- reconhecimento jurídico crescente de animais como seres sencientes (por exemplo, no tratado básico da União Europeia);
- mudança cultural: a mídia passou a tratar o tema com maior seriedade;
- difusão do termo “vegano”, antes praticamente desconhecido, hoje presente em cardápios, rótulos e espaços públicos mundo afora.
Retrocessos e agravamento do quadro
Por outro lado, Singer mostra que a situação dos animais se agravou em termos absolutos. O número total de animais explorados e mortos aumentou expressivamente. A China aparece como exemplo dramático: maior produtora mundial de porcos e grande produtora de aves, com sistemas intensivos altamente concentrados, como as chamadas “fazendas arranha-céu”, edifícios de vários andares que abrigam milhões de animais em confinamento severo. Esse modelo representa a culminação tecnológica da pecuária industrial.
Hoje, estima-se que cerca de 83 bilhões de mamíferos e aves sejam criados e abatidos anualmente para consumo, sem contar peixes e outros animais aquáticos, cujo número é ainda mais difícil de mensurar. A imensa maioria desses animais vive sem acesso ao ar livre e em condições que limitam drasticamente seus comportamentos naturais.
Ao mesmo tempo, crescem iniciativas positivas na própria China, como cadeias de restaurantes totalmente veganos, e o aumento da oferta de produtos à base de plantas. Tal quadro ilustra a coexistência paradoxal entre a expansão da exploração animal em escala industrial e a expansão da consciência ética e das alternativas veganas.
Novos conhecimentos sobre senciência
Singer incorpora ainda resultados recentes de pesquisas científicas que reconhecem formas de senciência em peixes, polvos, lagostas, caranguejos e outros invertebrados. Isso amplia ainda mais o âmbito dos seres que devem ser incluídos no círculo de preocupação moral.
Pecuária e crise climática
Outro eixo central da atualização é a relação entre pecuária e crise climática. As emissões do setor agropecuário, especialmente as relacionadas à produção de carne bovina e ao desmatamento associado — particularmente na Amazônia —, contribuem de forma relevante para o aquecimento global. Singer sustenta que uma mudança profunda nos padrões alimentares teria impacto comparável à redução drástica do uso de combustíveis fósseis no transporte.
Extinguir a pecuária industrial reduziria também a incidência de doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer relacionados ao consumo de carne.
Considerações finais
Cinquenta anos após a primeira edição, Libertação Animal continua sendo um dos livros mais influentes da ética contemporânea. A obra:
- introduziu conceitos como especismo, senciência e igual consideração de interesses no centro do debate filosófico;
- denunciou de forma sistemática a crueldade estrutural da pecuária industrial e da experimentação animal;
- ofereceu uma base racional para o veganismo como exigência ética;
- contribuiu para a formação de toda uma geração de ativistas e pesquisadores.
Ao mesmo tempo, os dados atuais mostram que, apesar do avanço da consciência e da multiplicação de iniciativas veganas, a exploração animal segue em escala massiva e com impactos ambientais, sanitários e éticos profundos.
A mensagem central de Singer permanece válida: é necessária uma reorientação ética radical, fundada na senciência e no respeito à vida própria de cada animal. A tradução e a difusão dessas ideias em diferentes línguas e contextos culturais são parte desse esforço de transformação, do qual Libertação Animal continua sendo um ponto de referência indispensável.
Cinquenta anos depois, Libertação Animal permanece não apenas como documento histórico, mas como desafio ético em aberto. O mundo mudou — e, paradoxalmente, também se agravou. Se o círculo moral se expandiu conceitualmente, sua aplicação prática ainda está longe de acompanhar essa expansão. Traduzir, reler e debater Singer hoje é participar dessa tensão entre consciência crescente e realidade ainda brutal.
A Tradução do livro Libertação Animal, de Peter Singer
Marly Winckler, socióloga, tradutora, presidente-fundadora da Sociedade Vegetariana Brasileira (2003-2015), presidente da União Vegetariana Internacional (2011-2025).


