Aprender a amar fora do humano

Uma leitura anti-especista de Frankenstein, baseada na adaptação de Guillermo del Toro.

Lançada em outubro de 2025, a adaptação do romance Frankenstein, pelos olhos sensíveis de Guillermo del Toro, rapidamente se tornou um dos filmes mais comentados do período e figurou por boas semanas no top 10 dos títulos mais assistidos da plataforma de streaming Netflix, que produziu o longa. Durante pouco mais de duas horas, somos reintroduzidos ao universo de horror gótico criado por Mary Shelley há dois séculos, agora ganhando o peso imaginativo de Del Toro, que, nas duas últimas décadas, se tornou referência por trazer monstros, criaturas e excluídos em geral para o centro de verdadeiros espetáculos visuais.

Como vegano, foi difícil assistir ao filme dos sonhos do diretor mexicano sem uma perspectiva anti-especista. A história dessa criatura que, completamente à margem da sociedade, busca compreender a si mesma e a quem a criou, está inerentemente atrelada à história da ascensão do vegetarianismo no mundo. A autora do livro era vegetariana e grande entusiasta do tema, tendo contato desde cedo com obras emblemáticas do movimento, que vão desde o filósofo Jean-Jacques Rousseau até o poeta (e seu marido) Percy Shelley, outro grande nome do vegetarianismo romântico. Assim como o feminismo, o vegetarianismo permeia toda a obra de Mary Shelley, que era filha de Mary Wollstonecraft, filósofa e escritora feminista.

No livro, a criatura criada por Victor Frankenstein é abertamente vegetariana e compartilha sua escolha ética com seu criador em um dos momentos mais emblemáticos do romance. Tendo conhecido da forma mais cruel a moral humana, a criatura abdica do consumo de carne. Uma decisão ética que reflete aquilo que ela buscava na humanidade, mas foi incapaz de encontrar: empatia.

“Minha comida não é a do homem; não destruo a ovelha e o cabrito para saciar meu apetite; bolotas e amoras me dão nutrição suficiente. Minha companheira deve ser da mesma natureza que eu, e ficará satisfeita com o mesmo sustento. Faremos nossa cama de folhas secas; o sol vai brilhar sobre nós e sobre o homem, e vamos colher nosso alimento.”

Em contrapartida, no filme de Del Toro, o viés vegetariano (assim como o feminista) é um pouco mais sutil. Aqui, a Criatura também é excluída da compaixão humana e vaga pelo mundo exterior após escapar do laboratório de seu criador, buscando alguma identificação, ainda que mínima. E ela a encontra nos animais não humanos.

Em uma cena especialmente delicada e brutal, vemos a Criatura observar o mundo natural com uma atenção quase reverente enquanto um grupo de cervos se alimenta. Ela acaricia e alimenta um dos animais, além de aprender com eles a origem vegetal da comida. Não há impulso de caça, posse ou superioridade. O cervo não é “natureza” nem “recurso”. Esse momento tocante é interrompido por um tiro que ceifa a vida do animal que antes a Criatura admirava. Mais um retrato dolorido da violência e da lógica de dominação do mundo humano.

Mais tarde, é observando o comportamento de um grupo de ratos que a Criatura encontra abrigo e algum conforto. Não existe repulsa, apenas convivência. Eles dividem espaço, alimento e silêncio. Naquele mesmo lugar, a Criatura teria, mais adiante, seu primeiro contato verdadeiramente saudável com a cumplicidade humana, ao observar a relação da família que habita a casa. 

Em outra cena tensa, um grupo de lobos invade a fazenda para se alimentar das ovelhas ali criadas, gerando uma resposta armada dos fazendeiros, que tiram a vida de alguns membros da alcateia. A Criatura reflete sobre a violência que presenciou:

“O caçador não odiava o lobo. O lobo não odiava a ovelha. Mas a violência parecia inevitável entre eles. ‘Talvez’, pensei eu, ‘o mundo funcionasse dessa forma’. Ele os caçaria e os mataria apenas por serem quem são.”

O “monstro” desta história se encontra na fronteira entre aquilo que é definido como “humano” e “animal”, o que lhe permite enxergar o mundo ao seu redor a partir de uma perspectiva única, livre do especismo. Para a sociedade, o humano ocupa o topo de uma pirâmide hierárquica. Para a Criatura (montada a partir de restos e  posteriormente descartada) essa pirâmide não faz sentido.

Desprovida de acolhimento e lançada em um mundo despreparado para lidar com ela, a Criatura vaga em busca de semelhanças que a façam sentir parte de algo. Ao observar os animais, ela não os vê como ferramentas, mas como indivíduos que, assim como ela, existem fora do contrato social humano.

Talvez por isso o olhar da Criatura seja tão perturbador: ele nos obriga a imaginar um mundo onde a empatia não nasce da semelhança com o humano, mas do reconhecimento da vida como valor em si. Ao aprender a amar fora do humano, a Criatura revela que o especismo não é um dado natural, mas uma pedagogia: algo ensinado, herdado e reproduzido. O veganismo, nesse sentido, deixa de ser apenas uma escolha individual e passa a se apresentar como um gesto ético de ruptura: a recusa em aceitar a hierarquia da vida como inevitável e a tentativa, ainda que imperfeita, de reaprender a coexistir sem transformar o outro em recurso.


Gabriel Tolentino atua na UAI Tofu desde 2019 e é responsável pelo social media da marca desde 2023. Vegano há mais de dez anos, acredita na comunicação como ferramenta de transformação cultural e política. Seu trabalho parte da interseção entre ativismo, sensibilidade e linguagem digital, buscando traduzir os valores da UAI Tofu (saúde, sabor e defesa inegociável dos animais) em narrativas acessíveis e conscientes.

 

 

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