Um peixinho betta e uma planta são ambos seres vivos, mas vivem de formas completamente diferentes. O betta, frequentemente explorado como decoração em aquários-prisões, na verdade é um animal senciente; tem emoções, aprendizados, relações e um ponto de vista próprio. A planta reage à luz, ao toque e até a ferimentos, mas não tem experiência interna. Ela responde, mas não percebe a vida. Não responde emocionalmente ao que acontece com ela. Essa simples e preciosíssima diferença abre a porta para entendermos o que realmente significa ser vivo e senciente.
Senciência é a capacidade de ter uma vida interna: sentir, perceber, aprender, lembrar, se emocionar. É mais do que captar estímulos. É ter subjetividade, uma perspectiva própria, complexa e misteriosamente única sobre o mundo. Já é comprovado que todos os vertebrados possuem dimensão psicológica, e hoje há evidências de que muitos invertebrados, como abelhas e moscas, também têm. Mas pela maior parte da História, a humanidade não reconheceu isso. Admite-se há muito tempo que animais sentem dor, mas não emoções, expectativas e até traumas. Esse reconhecimento só começou a ganhar força com os avanços da psicologia e da neurologia no fim do século XIX.
Mesmo assim, e infelizmente, reconhecer a senciência nunca significou reconhecer direitos. Animais continuam sendo considerados como todo tipo de “coisa” em 2025, mesmo muitos anos depois do reconhecimento científico da sua senciência. Ainda são tratados (e em número cada vez maior) como recursos que podem ser manipulados e mortos segundo a conveniência humana. E isso foi reforçado por uma tradição ética que se consolidou muito antes do veganismo: o bem-estarismo. Em 1789, o filósofo inglês Jeremy Bentham colocou a dor como o centro da moralidade animal, e essa ideia moldou dois séculos de políticas e campanhas focadas apenas em reduzir sofrimento. O resultado foi uma narrativa conveniente para a exploração: seria aceitável usar animais desde que houvesse “melhores práticas”. Isso permitiu que a indústria animal se apresentasse como moralmente responsável sem abrir mão da exploração em si, enquanto os escraviza cada vez mais. E séculos depois, podemos ver os efeitos disso disso culturalmente, quando tanta gente defende animais enquanto ainda os consome, usa ou compra, porque aprendeu a identificar injustiça apenas quando há crueldade explícita.
É interessante observar que apenas em 1951, com a formulação ética do veganismo, que surgiu a afirmação clara de que animais sencientes são pacientes morais: indivíduos com vida interna, interesses próprios e, portanto, o direito básico de não serem transformados em propriedade humana. Não é uma posição baseada apenas na dor e no prazer, mas na própria condição de serem alguém e não algo.
A ciência moderna reforça esse princípio. Declarações como a de Cambridge, em 2012, confirmam que muitos animais têm subjetividades complexas. Mas o reconhecimento científico ainda é parcial: aceita-se a senciência, mas não as implicações éticas lógicas dela.
Entendê-la é admitir que existe, ou já existiu, alguém dentro do corpo de qualquer animal senciente; da mesma forma que existe alguém dentro do nosso. É admitir que esse alguém tem um jeito próprio de sentir, de aprender, de lembrar e de existir. E que não precisa sentir dor para padecer de uma injustiça profunda. A injustiça já começa no olhar que subjuga.
É essa objetificação que abre espaço para tudo o que vem depois. Quando um indivíduo é transformado em recurso, qualquer tipo de uso se torna possível, desde o aparentemente “gentil” até o mais brutal. Afinal, ninguém pode ser cruel com “algo.” A crueldade só se sustenta quando o outro já foi reduzido a algo.
Exemplo: enquanto alguém achar aceitável montar num cavalo e usá-lo como transporte, mesmo sem sela, sem arreio e com todo o “cuidado do mundo”, esse mesmo cavalo pode, pelas mesmas premissas, ser colocado nas piores condições de transporte, trabalho forçado ou exploração comercial. A lógica é a mesma. Se ele pode ser usado como meio, não considerado como o indivíduo vulnerável que é, ele pode ser usado de qualquer maneira. A forma muda, mas o status é o mesmo: coisa. Enquanto for aceitável que alguém seja tratado como coisa, mesmo sem sofrimento aparente, a crueldade se torna inevitável.
A ciência confirma a complexa e delicada vida interna dos animais. O veganismo reconhece o que essa vida significa. E essa união é o que finalmente nos permite enxergá-los como quem sempre foram: animais sencientes como nós, não recursos.
Victoria Valente é artista, estudiosa e ativista vegana. Acredita que o maior obstáculo para o avanço do Veganismo é a desinformação: seja pela sua banalização, seja pela complexidade ideológica que o distancia de sua essência. Em seu trabalho, busca resgatar a história, o sentido ético e a consciência moral que originaram o maior marco da causa animal.


