Por Eloise Beraldo |
Durante décadas, fomos ensinados a acreditar que o alto rendimento esportivo dependia obrigatoriamente do consumo de alimentos de origem animal. A imagem do atleta forte sempre esteve associada à carne, ao leite e aos ovos. Mas a ciência, a história do esporte e a prática atual mostram uma realidade diferente.
A nutrição à base de plantas, quando bem planejada, não apenas é compatível com a alta performance, como pode sustentar carreiras esportivas longas, saudáveis e eticamente coerentes.
O que a ciência diz sobre atletas veganos?
De acordo com o Guia de Nutrição Esportiva Vegana da SVB, revisões sistemáticas da literatura científica mostram que não há prejuízo de desempenho em atletas que seguem uma alimentação vegetariana estrita quando comparados a atletas onívoros .
Estudos que avaliaram modalidades de endurance, força e potência concluíram que:
- a performance não é inferior
- adaptações fisiológicas ocorrem normalmente
- fatores como treino, descanso, planejamento nutricional e genética tem impacto muito maior do que o tipo de dieta isoladamente
Ou seja: não é a ausência de produtos animais que limita a performance, mas sim a ausência de planejamento.
Por que atletas à base de plantas performam bem?
O guia da SVB aponta alguns mecanismos importantes que ajudam a explicar por que atletas veganos conseguem competir em alto nível :
Maior ingestão de carboidratos
Alimentos vegetais como grãos, frutas, leguminosas e tubérculos são naturalmente ricos em carboidratos, o principal combustível para esportes de endurance, como a corrida.
- Estoques adequados de glicogênio = melhor rendimento e recuperação.
Melhor fluxo sanguíneo e oxigenação
Dietas à base de plantas tendem a reduzir a viscosidade sanguínea e melhorar a função vascular, favorecendo a entrega de oxigênio aos músculos durante o exercício.
Menor inflamação e estresse oxidativo
O alto consumo de antioxidantes naturais (vitamina C, E, carotenoides e polifenóis) está associado a:
- melhor recuperação muscular
- menor inflamação crônica
- possível redução de lesões
Minha experiência como corredora vegana
Na prática, eu vivo isso todos os dias.
Sou corredora vegana de alto rendimento e faço parte do time UAI Atletas, um projeto que acredita no esporte alinhado com ética, consciência e saúde. Minha performance, recuperação e constância nos treinos são sustentadas por uma alimentação à base de plantas bem planejada, com foco em energia, densidade nutricional e prazer em comer.
O apoio da UAI Tofu vai muito além do produto: é suporte real a atletas veganos que mostram, na prática, que performance e compaixão caminham juntas. O tofu, por exemplo, é uma das minhas fontes frequentes de proteína, versátil, acessível e culturalmente presente na nutrição esportiva vegana.
Não se trata de “substituir carne”, mas de construir uma base alimentar funcional, ética e eficiente.
Atletas olímpicos que provam que é possível
A história do esporte está repleta de atletas de elite que competiram em alto nível com alimentação vegetariana ou vegana, muitos deles em Jogos Olímpicos.
Alguns exemplos citados no guia da SVB :
- Carl Lewis – 9 medalhas de ouro olímpicas, vegano durante o auge da carreira
- Lewis Hamilton – embora não olímpico, um dos maiores atletas da história do esporte moderno e grande porta-voz do veganismo
- Atletas brasileiras que participaram dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, como: Nathalia Siqueira Almeida (natação), Marina Fioravanti Costa (rugby), Ana Carolina da Silva (voleibol) e Macris Carneiro (voleibol)
Esses exemplos ajudam a quebrar um mito antigo: força, resistência e potência não pertencem a um grupo alimentar específico.
O que exige atenção na nutrição esportiva vegana?
O próprio guia da SVB é claro: atletas veganos precisam de planejamento nutricional, assim como qualquer atleta .
Alguns pontos de atenção:
- vitamina B12 (suplementação indispensável) • ferro, zinco, cálcio, vitamina D e iodo
- ingestão energética suficiente
- estratégias de recuperação e suplementação quando necessário
Nada disso invalida a alimentação à base de plantas, apenas reforça que nutrição esportiva é ciência, não achismo.
Conclusão
A nutrição à base de plantas não limita a alta performance.
Ela exige consciência, planejamento e informação de qualidade, assim como qualquer estratégia nutricional séria no esporte.
Como corredora vegana, estudante de nutrição e parte de um time que acredita no esporte ético, eu vejo todos os dias:
- é possível competir
- é possível performar
- é possível cuidar do corpo sem explorar outros seres E quando ética e ciência caminham juntas, o resultado é um esporte mais saudável, mais justo e mais humano.
Referências
- Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB). Testoni, F. V. Guia de Nutrição Esportiva Vegana. Departamento de Saúde e Nutrição da SVB, 2024.
- Position of the Academy of Nutrition and Dietetics. Vegetarian Diets. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, 2016. Afirma que dietas vegetarianas bem planejadas são adequadas para atletas em todas as fases da vida.
- European Society of Cardiology. Vegetarian and plant based diets and cardiovascular health. European Heart Journal, 2023. Evidencia benefícios cardiovasculares relevantes para atletas de endurance.
- Craig, W. J., Mangels, A. R. Position of the American Dietetic Association: Vegetarian Diets. Journal of the American Dietetic Association, 2009.
- Barnard, N. D. et al. Plant-based diets for cardiovascular safety and performance. Nutrients, 2019.
OBS: Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui o acompanhamento individualizado com nutricionista, especialmente no contexto esportivo.

Eloise Beraldo é estudante de Nutrição, criadora de conteúdo e atleta de corrida de alto rendimento. Como ativista vegana, acredita que o verdadeiro desempenho (no esporte e na vida) nasce do equilíbrio entre corpo, mente e compaixão. Sua relação com a alimentação é marcada por uma jornada de superação: após enfrentar a anorexia, encontrou no veganismo não apenas uma forma de se nutrir, mas de se reconectar com a própria existência. Hoje, usa sua voz e sua vivência para mostrar que é possível alcançar saúde, força e propósito sem explorar nenhum animal.


