As listas Veg-Brasil e Veg-Latina

Virei vegetariana no início da década de 1980. Havia recém chegado de Londres, onde havia morado por cerca de dois anos, mas que, por incrível que pareça, nada percebi lá relacionado com o vegetarianismo. Eu estava mais interessada em política, tanto que ao retornar troquei o curso de arquitetura pelo de sociologia.

Em 1992, escrevi um livrinho “Vegetarianismo – Elementos para uma Conversa Sobre”, que, como o nome diz, pretendia compilar argumentos que justificassem o vegetarianismo. Este livrinho começou a circular e tive que começar a estudar mais sobre o assunto para responder as perguntas que me faziam. Na época a comunicação era por caixa postal. Dá para acreditar?

Soube então – pela revista Vegetarian Times (uma cópia xerox caiu em minhas mãos), que haveria um Congresso Mundial Vegetariano na Holanda. Lá fui eu. Nesse Congresso fiquei sabendo da existência de veganos. Era um grupo barulhento. Estavam quebrando o pau porque havia um estande vendendo queijo. O Congresso da Holanda, realizado em Haia (The Hague) em 1994, foi organizado pela União Vegetariana Internacional (IVU), organização da qual eu viria, em 1999, a me tornar Coordenadora para a América Latina, e em 2011, presidente, cargo que ocupei até recentemente, em setembro de 2025. Este foi o último evento da IVU em que ainda se permitiu a venda de produtos de origem animal.

Conheci neste congresso muitas pessoas que já eram conhecidas no movimento, entre as quais Peter Singer. Mais tarde tive a honra de traduzir para o português seu principal livro, Libertação Animal, que este ano comemora 50 anos de seu lançamento. Soube também neste Congresso que haveria um Festival Vegano, no ano seguinte, em San Diego, Califórnia. Lá fui eu. E voltei vegana. Morava então no Rio de Janeiro e não conhecia nenhum vegano e nenhum lugar que tivesse sequer opções veganas.

Neste Festival conheci a Internet. Voltei determinada a utilizar esta ferramenta. Já desde algum tempo eu juntava materiais para o que eu chamava de Diretório Vegetariano. Criei então o Sítio Vegetariano que viria a ser a primeira página sobre vegetarianismo em português do mundo, como descobri depois. Tudo era muito novo nessa época, e tentei de todas as formas encontrar alguém que me ajudasse a criar um site, mas tive que eu mesma fazer um curso de html na PUC-Rio, onde eu estudava. 

Também criei no Yahoo duas listas de discussão: a veg-brasil e a veg-latina. Estas listas também foram pioneiras, tanto em língua portuguesa como espanhola. Começaram a aparecer vegetarianos e simpatizantes de todas as partes, as mais inimagináveis. O clima era muito bom, de auxílio mútuo e descobertas. Por muitos anos esses foram os fóruns de discussão sobre vegetarianismo/veganismo no Brasil e mundo afora, pois atraíram falantes de português de todas as partes. As listas chegaram a ter milhares de inscritos e as discussões eram férteis e, às vezes, acaloradas. Muita gente se tornou vegana ao tomar consciência pelas listas do que acontecia com os animais explorados para a produção de leite e ovos. 

Eu traduzi dezenas de artigos, os quais postava na veg-brasil e na veg-latina, e também no SítioVEG. Enfim, foram anos de muita efervescência, que sedimentaram o caminho para a criação da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), que criei em 2003 para sediar o 36º Congresso Vegetariano Mundial da União Vegetariana Internacional (IVU), no Costão do Santinho, em Florianópolis. Mas essa é outra história.


Marly Winckler, socióloga, tradutora, presidente-fundadora da Sociedade Vegetariana Brasileira (2003-2015), presidente da União Vegetariana Internacional (2011-2025).

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