Por Marly Winckler | Existe uma ética da alimentação? Sem dúvida. Não me refiro à ética do ribeirinho no meio da floresta amazônica ou de um índio vivendo com sua tribo em algum canto remoto do planeta ou até mesmo ao pequeno produtor rural, vivendo uma economia de subsistência em algum rincão do gigante Brasil. Refiro-me ao homem urbano, aquele que compra o que come em mercados, supermercados, restaurantes e vendas em plena cidade. Refiro-me àqueles que têm acesso a tudo – ou quase tudo – o que o dinheiro pode comprar para suprir suas necessidades alimentares. Refiro-me à ética no alimentar-se daquele aquinhoado com as benesses da civilização moderna. Do que tem acesso ao sal da terra.
É claro que a ética de um e de outro é diferente — mas não é esse o ponto que pretendo discutir. Interessa-me aqui a ética do consumidor urbano, que depende de terceiros para tudo o que consome. Mesmo entre estes há uma boa diferença entre os vários tipos urbanos, sendo que as elites têm certamente maior responsabilidade em dar o exemplo, em refletir a ética na sua conduta alimentar, sejam as elites intelectuais, artísticas, religiosas, políticas, enfim, todos aqueles que, de alguma forma influenciam a sociedade. Afinal, seus hábitos servem de exemplo e impactam uma parcela significativa da população.
Vejamos a origem daquilo que colocamos no prato no que se refere a produtos de origem animal.
Carnes
Ao desconstruirmos o pedaço de carne que temos no nosso prato chegamos a um quadro de dor e miséria. A dieta centrada na carne tem impacto negativo sobre a saúde das pessoas, gera enorme sofrimento aos animais e é um dos fatores que mais agridem o meio ambiente e esgotam os recursos naturais, sendo um dos principais responsáveis pela derrubada das florestas, pelo uso e contaminação das águas, pela perda da biodiversidade etc. Nunca na história da humanidade os animais foram criados e abatidos de forma tão cruel, confinados, impedidos de seus instintos mais básicos, gerando enorme estresse, doenças, sofrimento.
O consumo de carnes de vários tipos (boi, porco, frango, peixe etc.) está associado a várias doenças, sobretudo as chamadas doenças da afluência (ou doenças da riqueza). Há um forte consenso de que a dieta vegetariana é mais saudável do que as que dão ênfase aos alimentos de origem animal. Uma dieta vegetariana reduz o risco de doenças crônicas e degenerativas, como cardiopatias, câncer, diabetes, obesidade, osteoporose, doenças da vesícula biliar e hipertensão. Tratam-se das principais doenças que levam ao óbito nas sociedades ocidentais. A correlação entre doenças e alimentação está comprovada. Segundo a Sociedade Americana de Câncer pelo menos um terço dos óbitos por câncer naquele país estão ligados à alimentação.
A alimentação vegetariana apresenta muitos benefícios, tanto assim que várias organizações internacionais de renome como a American Heart Association (AHA), a Food and Drug Administration (FDA), o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a Kids Health (Nemours Foundation), o College of Family and Consumer Sciences (University of Georgia) e a Associação Dietética Americana têm parecer favorável ao vegetarianismo, esta última afirmando inclusive que os profissionais da área da nutrição têm o dever de incentivar aqueles que expressam intenção de se tornarem vegetarianos.
O vegetariano tem risco reduzido de doenças crônicas e degenerativas, como cardiopatias, câncer, diabetes, obesidade, osteoporose, doenças da vesícula biliar e hipertensão. O vegetariano tem 31% a menos de cardiopatias, 50% a menos de diabetes, vários cânceres a menos, sendo 88% a menos de câncer de intestino grosso e 54% a menos de câncer de próstata, só para citar alguns5.
Do ponto de vista da saúde das pessoas, não há dúvidas sobre os benefícios da alimentação isenta de produtos de origem animal.
Impactos ambientais
A alimentação centrada na carne está associada também a enormes impactos ao meio ambiente.
O impacto ambiental causado pela criação de quantidades exorbitantes de animais para suprir (e estimular) a demanda por carne é colossal. Só no Brasil são criados anualmente cerca de 200 milhões de bovinos e cerca de um bilhão de frangos, galinhas, suínos etc.
Há mais gente que bois no nosso país, gerando enormes impactos, pois esses animais precisam se alimentar, bebem água, ocupam áreas extensas e produzem grandes quantidades de dejetos e gases de efeito estufa entre outras coisas. Criar animais para gerar alimento é uma forma muito ineficiente de utilização dos recursos.
A indústria da carne é responsável por mais de metade da água consumida para todos os fins. Cada quilograma de carne de gado gerado em sistema de confinamento deixa para trás de 7 a 9 litros de excrementos, que não têm como ser absorvidos pela terra e não seria também econômico.
A fome no mundo é uma realidade dolorosa, persistente e desnecessária. No momento, existe suficiente terra, energia e água para bem alimentar mais que o dobro da população humana, contudo quase metade da colheita mundial de grãos é destinada aos animais. Mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo estão subnutridas. Nossos hábitos alimentares estão estreitamente ligados a um quadro de miséria, subnutrição e fome. Estão ligados também a um enorme desperdício, à degradação sem precedentes do meio ambiente e a um enorme sofrimento por parte dos animais.
A ONU produziu um relatório chamado Feed versus Food no qual conclui que 39% das terras do mundo são utilizadas para criar animais. Outros 47% são usados para alimentar pessoas. Estamos usando nossa terra para alimentar animais quando 2.700 milhões de pessoas gastam mais de metade de seu dinheiro em comida.
Dos 850 milhões de hectares do Brasil, a pecuária ocupa cerca de 220 milhões de hectares (cerca de 25%). A atividade é a principal responsável por alterações nas paisagens naturais do Brasil. A criação de gado é responsável pelo desmatamento de 93% da Mata Atlântica, 80% da Caatinga, 50% do Cerrado e 18% da Amazônia.
Segundo Carlos Minc, ex-ministro do Meio Ambiente, dos quase 20% de floresta amazônica já destruída, 80% se devem à ocupação pela pecuária extensiva. Essa destruição ocorreu mais significativamente nos últimos 40 anos. Até 1970 menos de 2% havia sido desmatado. 30 anos mais tarde 20% (cerca de 750.000 km2 / 100 milhões de hectares) está desmatado.
A floresta amazônica detém a maior biodiversidade do planeta, com mais de ¼ de todas as espécies vivas em apenas 5% da superfície da terra. Estamos destruindo essa riqueza imensa sem nem ao menos conhecê-la.
Há um enorme desperdício na produção da carne. Cereais são desviados do consumo direto (dos pobres) para o consumo indireto (das classes médias) por processá-los através de um conversor de proteínas muito ineficiente: o estômago dos animais.
Ocorre um “encolhimento” de cereais no processo. As taxas de conversão por equivalente-caloria grão-carne variam de 2:1 para frango a 7:1 para gado confinado3.
Na maioria dos países, os cereais são a principal fonte de ingestão de calorias nos lares de baixo poder aquisitivo. Entre as pessoas de níveis mais altos de renda, as classes médias, os cereais também representam um papel proeminente na dieta. A única diferença é que os cereais são consumidos indiretamente, tendo sido antes convertidos em proteína animal.
As mudanças climáticas estão ligadas à derrubada e queimada das florestas para dar lugar ao enorme rebanho criado artificialmente. No relatório A grande sombra da pecuária, a FAO afirma que os gases emitidos pelos excrementos e flatulências, pelo desmatamento para abrir pastagens e na geração de energia gasta no manejo do gado respondem por 18% dos gases-estufa emitidos anualmente no mundo. Segundo este relatório, a pecuária agrava mais o efeito estufa do que o setor de transportes, responsável por 13% das emissões.
A água doce do planeta também está sofrendo grandes impactos pela indústria da carne, tanto no consumo, quanto na contaminação. Os dejetos gerados pela imensa quantidade de animais criados em espaços exíguos (100% dos frangos e suínos são criados em regime de confinamento) são outra fonte de contaminação das águas e do ambiente em geral, um problema de difícil solução. A explosão da população de animais resultou numa explosão também dos dejetos fecais, grandes poluidores da água.
Como a economia mundial está crescendo, também cresce o consumo mundial de carne. O crescimento da renda em países como Índia e China vem acompanhado do aumento do consumo de carne. A média de consumo per capita no mundo industrializado é de 80 quilos de carne anuais, nos países em desenvolvimento é de cerca de 30 quilos. De acordo com a FAO a produção mundial de carne está projetada para dobrar de 229 milhões de toneladas em 1999/2001 para 465 milhões de toneladas em 2050, e a produção de leite está calculada para aumentar de 580 para 1043 milhões de toneladas.
Todos os países que produzem carne irão aumentar a pressão sobre os recursos terrestres. A FAO estima que cerca de 20% do planeta está sendo degradado por pastagens animais, e o aumento da procura por carne significa um aumento da procura para a alimentação animal, já que grande parte da produção mundial de cereais é fornecida aos animais e não ao homem.
“O gado é hoje um dos fatores que mais contribui para os problemas ambientais mais graves da atualidade. São necessárias ações urgentes para remediar esta situação”, afirmou Henning Steinfeld, chefe da FAO para a questão e principal autor do relatório A grande sombra da pecuária. O documento tem mais de 400 páginas e se debruça não apenas sobre o impacto da atividade no efeito estufa. Fala também da poluição da água e do encolhimento de florestas, com a respectiva perda de biodiversidade, para ampliar a pecuária.
De acordo com a FAO, a pecuária está entre as três principais causas de qualquer problema ambiental significativo, incluindo a degradação da terra, mudanças climáticas e poluição do ar, escassez e contaminação de água e perda de biodiversidade.
Neste contexto de grandes impactos ambientais, de enormes benefícios para a saúde e da questão ética de se criar animais em condições que geram enormes sofrimentos, a opção pela alimentação vegetariana se torna ainda mais crucial. São tantos os benefícios da dieta vegetariana que só porque nossa sociedade está mergulhada até o pescoço nesse hábito tão prejudicial é que não consegue perceber o quanto todos ganhariam caso mudássemos nossa alimentação. Além é claro dos grandes interesses da indústria da carne para perpetuar esse hábito e ampliá-lo.
Crueldade com os animais
Inúmeras crueldades são cometidas na criação de animais ditos “de consumo”, ou seja, para serem abatidos para virar comida. O sofrimento inerente ao abate não é o único aspecto a considerar. Imagens idílicas de fazendas onde os animais vivem felizes e contentes, junto à sua prole, povoam nosso imaginário, mas o agronegócio está tornando isso coisa do passado. A tendência hoje é criá-los em granjas industriais, onde vivem confinados e submetidos a tratamento cruel. Praticamente cem por cento dos porcos e frangos são criados hoje em regime de confinamento, e o gado e o peixe caminham para isso.
Os filhotes são separados da mãe assim que nascem e criados em condições abomináveis, totalmente artificiais, gerando muito estresse e doenças, combatidos com medidas ainda mais execráveis: corte do bico, do rabo, dos dentes e da genitália, tudo sem anestesia. Só saem dessa situação penosa para o abate. Ali, eles são depenados, esfolados, escaldados e esquartejados, na maior parte das vezes, ainda vivos.
Nunca na história da humanidade animais foram tão desrespeitados e maltratados como acontece agora em pleno século XXI nas granjas industriais. Como afirma Peter Singer “Os animais são tratados como máquinas que convertem forragem de baixo preço em carne de preço elevado, e qualquer inovação será utilizada se resultar em uma ‘taxa de conversão’ mais baixa”.
De acordo com a FAO, mais de 52 bilhões de animais são mortos para comida por ano no mundo.
Ovos
Nos sistemas modernos de produção de ovos os animais vivem vidas miseráveis do nascimento ao abate. 100% dos ovos de granja são provenientes de galinhas criadas em cativeiro. O grau de confinamento ao qual a galinha poedeira está sujeita é extremamente alto e impõe severas restrições ao seu comportamento normal. Normalmente, são usadas gaiolas contendo 2 ou 3 aves medem de 30 a 35 centímetros de largura por 43 de comprimento (menos que uma página de jornal aberta).
Sob tais condições, as aves não podem esticar suas asas, nem se mover sem esfregarem-se umas nas outras ou se levantar totalmente no fundo da gaiola. as galinhas ficam extremamente neuróticas, chegando ao canibalismo, mesmo que se aumente o tamanho da gaiola. Entre as galinhas existe uma hierarquia que fica impossível estabelecer com tão grande quantidade de galinhas em um espaço mínimo. Devido ao estresse que as galinhas enfrentam, elas disputam a hierarquia entre si à bicadas. Isso causa prejuízo aos avicultores, e é a principal motivação para o corte da ponta dos bicos das aves feita com uma lâmina aquecida. Essa lâmina é aplicada na ponta do bico das aves, por onde correm vasos sanguíneos, causando dor intensa. O desbicamento é feito duas vezes na vida de uma galinha: logo após o nascimento e logo antes da época de pôr os ovos. O chão das gaiolas é de arame, o que facilita a limpeza das vezes que caem por entre as grades e se acumulam no chão durante meses (causando um cheiro insuportável), mas causa desconforto durante toda a vida da galinha. É comum os criadores – quando se incomodam de averiguar – detectarem algumas galinhas cuja pele do pé cresceu em volta da grade, mantendo-as presas.
Leite
Como afirma o Dr. Michael Klaper “Não é natural para seres humanos beber leite de vaca. O leite humano é para seres humanos. O leite de vaca é para bezerros. Você precisa tanto de leite de vaca quanto precisa de leite de rata, leite de égua ou leite de elefante. O leite de vaca é um fluido com alto teor de gordura projetado para transformar um bezerrinho recém-nascido de 35 quilos numa vaca de 200. É para isso que serve o leite de vaca!”
Costuma-se acreditar que não é preciso ferir a vaca para obter o seu leite. A realidade, porém, é muito diferente: as vacas leiteiras passam a vida confinadas, sofrendo com altos índices de mastite — uma dolorosa inflamação das glândulas mamárias — até que, quando sua produção de leite diminui, deixá-las viver já não é considerado lucrativo. Logo depois, são também enviadas para o abate. Assim, o consumo humano de laticínios está diretamente ligado ao sofrimento, à exploração e à morte das vacas.
Muitas indústrias de laticínios mantêm suas vacas confinadas em galpões durante a maior parte de suas vidas.
Nos Estados Unidos, por exemplo, uma vaca produzia em média 3,5 toneladas de leite por ano em 1960. Em 1990, essa média já havia subido para 7,4 toneladas e hoje chega a 8,2 toneladas — resultado do uso do Hormônio de Crescimento Bovino (BGH/BST), que provoca mastite, uma dolorosa inflamação e infecção das glândulas mamárias.
Além disso, como as vacas precisam gerar para produzir leite, o consumo de laticínios está diretamente ligado à criação do mercado de vitela (baby beef). Os bezerros machos, considerados subprodutos da indústria do leite, são separados de suas mães com apenas um ou dois dias de vida. Fome, medo e sofrimento marcam esse processo: privados do contato materno, são transportados para os abatedouros e mortos com poucas semanas — e, em alguns casos, com apenas algumas horas de vida. Obviamente, mãe e filho sofrem intensamente com a separação.
Impactos sociais
Além da pegada ecológica, os problemas sociais gerados pela indústria da carne são igualmente graves. No Brasil, a maior parte das denúncias de trabalho escravo registradas no Ministério do Trabalho está ligada à pecuária. Outro grande problema é o abate clandestino, que responde por uma fatia expressiva do mercado nacional.
Embora as estatísticas oficiais apontem para 35% a 40%, números frequentemente influenciados por interesses corporativos, há fortes evidências de que a realidade seja ainda mais alarmante — chegando a aproximadamente 50% ou mais, a depender da região. Nesse contexto, práticas como o trabalho infantil também são recorrentes, ampliando a dimensão socialmente perversa desse setor.
Segundo o próprio Ministério Público “O consumo de carne proveniente do abate clandestino traz inúmeros prejuízos à saúde. As condições de higiene não são respeitadas, os equipamentos utilizados são inadequados e os produtos são transportados sem nenhum cuidado. Isso sem falar no sofrimento causado aos animais e nos danos ao meio ambiente.“
As condições de trabalho nos frigoríficos são degradantes e geram problemas físicos e psicológicos nos trabalhadores. Acidentes são corriqueiros. Nos frigoríficos os processos produtivos são agressivos. Ou o calor é excessivo, acima de 40 graus, chegando a 95 graus em vários pontos, ou muito frio, abaixo de doze, atingindo até 35 negativos nas câmaras frias. O barulho é ensurdecedor e os protetores auriculares reduzem pouco o nível de ruído.
A umidade está em todo lugar, proveniente dos vapores ou das mangueiras que incessantemente são acionadas para limpar o sangue do chão. O odor é desagradável, chegando a níveis insuportáveis em alguns setores como da triparia e bucharia. O ritmo da produção é alucinante, ditado pela velocidade das roldanas com ganchos que carregam nos trilhos os pedaços do animal, que vai sendo dissecado a cada seção.
Muitos outros pontos poderiam ainda ser levantados para somar-se aos argumentos já mencionados, mas não é intenção deste breve artigo esgotar o assunto. O essencial é reconhecer que os animais são seres sencientes, e não objetos passivos a serem explorados como peças em uma linha de produção.
Se considerarmos que todos esses impactos negativos — ambientais, sociais, éticos e de saúde — são não apenas enormes, mas também completamente desnecessários, já que o ser humano pode nutrir-se plenamente sem recorrer a nenhum produto de origem animal, torna-se claro que o consumo de carne, leite e derivados é apenas uma herança cultural, passível de transformação.
Concluímos, portanto, que uma alimentação verdadeiramente ética não pode, em hipótese alguma, incluir produtos de origem animal na lista do que consumimos.
Marly Winckler, socióloga, tradutora, presidente-fundadora da Sociedade Vegetariana Brasileira (2003-2015), presidente da União Vegetariana Internacional (2011-2025).


