Por Victoria Valente | Veganismo foi estabelecido como um princípio ético que gerou a primeira e única causa abolicionista que os animais já tiveram. Reduzi-lo à nossa prática alimentar não só distorce seu sentido, como literalmente apaga a causa de trilhões de animais explorados fora da indústria alimentícia ao longo da história e ainda hoje.
A ideia de que há um processo para alguém ser vegano sempre me pareceu justa, principalmente porque eu entendia o veganismo como vegetarianismo estrito. Afinal, faz sentido falar em processo quando se trata apenas de mudar uma dieta ou um estilo de vida. E foi assim que, também pelo tempo em que já era ovolactovegetariana, eu me convenci de que estava no caminho: bastava largar os ovos e o leite, um dia. O velho “processo”. “No meu tempo”.
Hoje vejo que isso funcionava como uma base confortável de resistência à mudança, uma narrativa que eu criei pra continuar agindo da mesma maneira, ainda explorando animais, sem precisar encarar de verdade o que o veganismo significa, nem a realidade deles, ou a minha relação com eles.
Não me faltava acesso à informação, nem disposição investigativa. Eu já sabia, já tinha visto, e participei diretamente dessa injustiça por anos. Até meus 28 anos de idade, mesmo durante o período em que fui ovolacto, estava profundamente convencida de que animais existiam para nos servir, e que tudo o que devíamos a eles era uma noção distorcida de respeito: só ausência de crueldade explícita, que na verdade é inevitável quando eles são vistos e tratados como mercadoria.
Cresci em contato constante com animais explorados e acreditava que os amava, mas ao mesmo tempo aprendia a vê-los como coisas disponíveis ao meu prazer e conveniência. Uma das minhas lembranças mais antigas é meu avô decapitando uma galinha, o que não me chocou, pelo contrário; naturalizei a cena a tal ponto que ainda anos depois, “admirava” galos no terreiro imaginando como seriam saborosos. Matei peixes e montei em cavalos só até a adolescência, mas consumi e usei animais de todas as formas. Aos 27, deixei de ser necrófaga, mas ainda consumia secreções e sequer questionava outras formas de exploração. Mesmo achando que eu os amava, meu comportamento era a prova de que ainda não via animais como alguém.
Mesmo quando eu já entendia o pior da exploração animal, como a separação de mães e filhos na indústria do leite, ainda encontrava espaço para continuar… Afinal, a ideia de que veganismo vem da adaptação ao vegetarianismo estrito não só é aceitável como amplamente promovida, inclusive por quem se declara vegano.
Como eu poderia relacionar práticas de exploração que aprendi desde a infância com um movimento apresentado quase sempre como alimentação, ou no máximo pelo animal que é morto, mas não por todos que são explorados? E, no fundo, como qualquer pessoa faria essa conexão?
Nunca me disseram que o veganismo foi estabelecido como um princípio ou uma urgência moral. Desde a primeira vez que ouvi o termo, sempre foi colocado como prática, dieta, estilo de vida. E das raras vezes que os animais foram mencionados, era quase sempre em termos de evitar sofrimento e morte. Mas sofrimento e morte existem inclusive nas plantações. O que raramente é colocado (e ao que de fato veganismo foi estabelecido para se referir) é a urgência de uma injustiça, criada por nós: humanos adultos, capazes de distinguir certo e errado, explorando deliberadamente indivíduos sencientes e vulneráveis por todo o mundo e História.
Quando um princípio sobre respeitar o corpo e a vida do outro é reduzido a práticas, dieta, consumo ou “processo”, ele deixa de ser uma causa de justiça e passa a algo pessoal, performativo e negociável, condicionado à conveniência. A gente é muito eficiente em sustentar incoerências quando elas nos mantêm confortáveis.
Existe uma diferença fundamental entre ajustar comportamento e transformar percepção. Reduzir um consumo pode mudar o hábito por fora, mas não altera, por si só, a forma como enxergamos o outro. Enquanto não nos dedicamos a observar, com real interesse, os padrões mentais que nos levam a objetificar os animais, ou a nos encarar com honestidade como opressores, a raiz do problema permanece intacta. E, se a mentalidade não muda, o comportamento pode até parecer diferente, mas é inconsistente, performático e instável, porque não parte de um compromisso ético nem de uma mudança interna real. É daí que surgem contradições reveladoras, como quem se diz vegano e ainda vê sentido em consumir um “ovinho caipira” ou usar couro de segunda mão. Quando a forma de enxergar os animais muda de fato, esse tipo de concessão simplesmente deixa de fazer sentido.
Quando eu finalmente encarei, sem desviar, aquilo que evitava há anos, investigar a realidade dos animais que eu explorava e a minha relação com eles, houve uma rejeição que não passou por cálculo nem adaptação. Porque não é uma escolha no sentido comum, mas uma mudança drástica de percepção. Em poucos minutos, já não havia mais espaço para eu continuar a mesma pessoa que percebi que eu era. Não se tratava de dar um próximo passo, mas “só” de enxergar, de fato, quem eles são.
E então tudo mudou. O que antes era normal deixou de ser aceitável de forma profunda. Não houve esforço, negociação interna, nem processo algum para manter essa resolução. Houve um estranhamento radical com tudo aquilo que eu naturalizava, e tudo o que sobrou foi ímpeto pro ativismo e curiosidade pra entender como poderia me reconstruir a partir dali.
Isso não significa ignorar contextos diferentes ou dificuldades reais daqueles que não tiveram uma mudança tão forte e rápida. Mas fica difícil negar o quanto o discurso do processo funcionou, pra mim, como forma de prolongar a resistência à mudança, e até mesmo a estudar e observar mais o que eu deveria. E não acho que esse dever seja diferente pra quem já tem acesso à informação e recursos básicos.
A ideia de um “processo” pro veganismo desloca uma urgência moral para uma prática ajustável ao longo do tempo. E isso serve tanto para diluir a causa quanto para acomodar quem ainda não está disposto a se encarar ou se comprometer de verdade com os animais. Porque, no fim, não falta tanta informação assim, e sim interesse e disposição mesmo.
Mudanças morais não seguem etapas previsíveis. A gente não deixa de ter um olhar opressivo por acúmulo de informação, mas por uma disposição e abertura reais (e bem misteriosas) para se perceber em relação ao outro, e se importar. E, embora existam adaptações práticas na nossa vida que andam junto com a nossa mudança de mentalidade, pouca gente aceitaria a ideia de um “processo” para justificar a continuidade de uma injustiça quando as vítimas são humanas. Muitos agressores, de fato, têm dificuldade de parar completamente, mas isso tornaria razoável recomendar que agredissem menos? Ou dizer “estou no processo”, enquanto continuam agredindo, ainda que menos e só de vez em quando?
Portanto, as pessoas não se tornam veganas porque estão num caminho. Veganismo não é um lugar, mas uma reconfiguração interna. É sobre rejeitar a exploração animal de forma que isso se torna natural. Nesse sentido, ele pode ser um ponto de chegada, mas, na prática, é muito mais uma transformação do que qualquer tipo de processo, é ponto de partida.
E, embora o veganismo não possa ser alcançado por um método padrão, também não é a falta de conveniência que impede tanta gente de internalizá-lo. Muitos já têm acesso e ainda assim não têm interesse. O quanto mudamos internamente tem muito mais a ver com o quanto estamos dispostos a olhar para nós mesmos e especialmente em relação ao outro, ainda mais quando ele não pode sequer reclamar ou defender a própria causa.
Victoria Valente é artista, estudiosa e ativista vegana. Acredita que o maior obstáculo para o avanço do Veganismo é a desinformação: seja pela sua banalização, seja pela complexidade ideológica que o distancia de sua essência. Em seu trabalho, busca resgatar a história, o sentido ético e a consciência moral que originaram o maior marco da causa animal.



